Precisamos falar sobre a Coreia do Norte: “Para Poder Viver” (Yeonmi Park) e “Fuga do Campo 14” (Blaine Harden)

Olá! Antes de começar, gostaria de dizer que este post não é uma resenha sobre os livros, apenas uma reflexão pessoal que tive ao lê-los. Não pretendo entrar em detalhes sobre o conteúdo destes, até porque acredito que sejam experiências de leitura muito ricas. Mas posso adiantar uma coisa: sua percepção pessoal sobre humanidade jamais será a mesma.

Desses, o primeiro que li foi Fuga do Campo 14. Encontrei este livro ao acaso na Saraiva em 2012, no próprio ano de publicação dele. Eu sempre me interessei muito por cultura asiática, então confesso que isso atraiu um pouco a minha atenção. Além disso, é um livro muito bem produzido, com um projeto visual bem interessante e uma capa porosa. Eu tinha 16 anos quando li esse livro, e foi um ano de leituras muito marcantes (1984 e O Retrato de Dorian Gray, por exemplo). Eu nunca vi ninguém falar sobre Fuga do Campo 14, o que é bem triste, mas lembro muito bem de sentir vários socos no estômago ao perceber que estes seres humanos passam por situações de escravidão, tortura, morte, fome, e ninguém no mundo se pronuncia a respeito. Todo mundo sabe e não sabe dos acontecimentos na Coreia do Norte.

“Mas como assim, sabem e não sabem?” Simples. Nós, ocidentais, somos naturalmente inclinados a acreditar que vivemos na plena democracia, e que os governos do oriente são sanguinários e excludentes. Mas a reflexão para por aí. Não sabemos o quão sanguinários ou o quão excludentes estes são. Alguns apenas dizem ser tudo “culpa do comunismo”, o que não explica as ditaduras de direita que também cometeram diversas atrocidades.

Existe uma diferença muito grande entre os protagonistas desses livros: Shin Donghyuk nasceu dentro de um campo de concentração para presos políticos. Dessa forma, dentro do sistema de castas norte-coreano, ele se encontrava na pior posição possível. Park Yeonmi vinha de uma família de “classe média”, em que seu pai e tios trabalhavam diretamente para o governo. Só isso já deveria ter tornado a experiência dos dois muito diferente. No entanto, ao ler ambos os livros, eu senti que ambos passavam por exatamente as mesmas coisas. O quão desesperador é isso? Assim como Shin, Park também passou fome, não possuía o direito de ir e vir nem dentro do próprio país e teve perdas na família causadas pela supremacia da ditadura Kim. Inclusive, ao ler a biografia de Shin, muitas vezes tive a sensação de que a história dele, apesar de se passar especificamente num campo de concentração, poderia ser a história de qualquer norte-coreano.

A história de Yeonmi é recente. Publicada em 2016, porém apenas cheguei a lê-la esse ano de 2018. Yeonmi é apenas três anos mais velha que eu, e ao ler sobre sua fuga em 2007, com apenas treze anos, fiquei muitas vezes imaginando como seria se eu estivesse no lugar dela. Principalmente quando ela relata as questões de estupro, abuso e tráfico humano sofridas em 2008, durante as Olimpíadas da China. Eu estava na 7ª série (8º ano), estudando sobre as tais olimpíadas e fazendo uma Feira de Ciências na escola, feliz e plena ao falar sobre as maravilhas do Japão e da China. Yeonmi, por sua vez, teve de largar os estudos no primário e apenas pôde retomá-los quando finalmente chegou à Coreia do Sul. Eu não sei colocar em palavras o que senti ao ler isso. Foi um misto de vergonha e de revolta em ter tantos privilégios enquanto uma pessoa que nasceu na mesma época que eu, apenas em outro lugar, sofreu tanto.

O Brasil, enquanto nação, ainda se mantém sob um regime democrático. Isso significa que eu posso vir aqui, no meu próprio site, expressar a minha opinião e as minhas impressões sobre o que eu quiser. E não é porque essa democracia se mantém há mais de 30 anos que ela não esteja ameaçada. Precisamos sempre, independente do governo em que estamos, manter esta democracia em constante manuntenção e vigilância. Não podemos nos enganar por políticos que prometam melhoras mirabolantes ou soluções milagrosas. Existem muitas nações que caíram nesse papo, e o resultado disso custou muito caro.

Para conferir os outros livros que leio, não deixe de acessar o meu Skoob!

Abraços,

Carol

Crônica: A saia rosa – #LecaHaine

Eu tinha zero de ânimo naquela hora. Zero de tudo, aliás. Nada de grana na bolsa e muita tristeza na mente. Apenas uma vontade muito grande de sentar e chorar. Queria chorar sozinha, sem ninguém pra me olhar. Meu quarto, tão longe, e eu ali, na Rodoviária do Plano. Queria um buraco onde pudesse entrar e ficar. E o ônibus que não chegava… e a fila que só aumentava.

Ainda bem que não me olhavam e não me notavam. Chegou o baú. Um casal de namorados sentou-se à minha frente. A cada carinho entre os dois, mais uma lágrima rolava quente e ardida. Melhor olhar pela janela e tentar me distrair. Foi pior: Pareceu que naquele dia só tinha gente feliz na rua.

E se aquele carinha não fosse ele? E mesmo se fosse, não tinha sorrido de mim, como pareceu. E se, de repente, ele sorriu sim, mas de sem graça, apenas para agradar a amiga ao seu lado?

Olhei para minha saia rosa. Sabia que deveria ter caprichado mais na roupa que iria vestir. Mas o que fazer diante de um guarda roupa tão restrito?

Pensei que se eu tivesse me dado uma chance, ele teria gostado de mim. Pensei que poderíamos ser igual ao casal de namorados do banco da frente. Tanta coisa pensei, mas não fiz nada. Não cheguei até ele e disse: oi, eu sou a fulana, a garota da saia rosa que marcou encontro com você. E ele poderia ter dito: Prazer, eu estava mesmo te esperando. Essa é minha amiga, sicrana de tal. Aí, a sicrana fingiria uma desculpa qualquer para ir embora e nos deixaria juntos. Qual! Não tive coragem de testar. Tão logo o vi acompanhado, fugi. Fugi com medo do que viria, do que poderia acontecer. Acho que fugi do medo de ser feliz, de sair da minha vida inútil. Ou, quem sabe, fugi apenas porque estava com aquela bendita saia rosa.

#LecaHaine

 

ATENÇÃO!

Pessoal de Brasília: não percam o lançamento do livro A Torre, na Livraria Cultura CasaPark, dia 03 de dezembro, às 18h30. Vocês são nossos convidados especiais! 😉

Considerações pessoais sobre literatura

1. Sobre literatura

A literatura em si é arte. Embora algumas pessoas possam não considerar seu estudo como arte, sua função é colocar em palavras o que há na alma do artista. Esta definição pode ser encontrada nas Artes Visuais, na Música, no Teatro, e em diferentes manifestações artísticas.

Muito se discute sobre o que pode ser ou não considerado literatura. Considera-se literatura todo e qualquer texto em prosa ou poesia de ficção, cujo objetivo é puramente estético. Compreender a não-ficção e seus atributos é questionável, visto que alguns gêneros textuais parecem ser facilmente inclusos, como o ensaio e a biografia. O texto jornalístico e o artigo científico, por exemplo, não costumam ser abrangidos por estudos literários, salvo circunstâncias específicas (como o jornalismo literário).

2. O estudo de literatura

Um exemplo perfeito da palavra subestimada. Este estudo, em sua forma mais palpável, está sendo deixado a apenas estudantes de pós-graduação que eventualmente tenham escolhido este ramo como principal objeto de estudo. Nem mesmo estudantes de graduação de Letras estão levando o estudo literário à sério. De acordo com o que tenho visto até agora, estudando Letras – Inglês na Universidade de Brasília durante três semestres, a maior parte de seus estudantes escolheu a Linguística Aplicada como principal área de atuação. Contudo, esta escolha faz com que muitos pensem que os estudos literários são de nenhuma utilidade a eles, mesmo que, na verdade, estes tomem metade de seus cursos.

Em escolas de ensino médio, a literatura é vista como um complemento da aula de História. Embora contextualizar movimentos literários em seus respectivos períodos históricos seja uma ferramenta de aprendizado eficaz, não é a única maneira de estudo com a qual estudantes deveriam entrar em contato. Ver a literatura apenas como algo referente a uma determinada época jamais fará com que os alunos se sintam conectados com a matéria, e esta permanecerá esquecida.

O estudo de literatura contemporânea é deficiente e praticamente inexiste, visto que muitos profissionais da área possuem a mente retrógrada e não se preocupam em estimular em seus pupilos o prazer da leitura. Com isto, muitos dos profissionais de Letras acabam frustrados, gerando um ciclo vicioso.

3. Seu valor

Literatura não é uma ciência. O seu estudo, ao contrário de fenômenos linguísticos, foca nos registros e situações passadas. Descobertas linguísticas costumam mudar a forma como é visto o estudo de determinadas línguas. Dessa forma, estudos antigos e desatualizados são apenas úteis para o estudo da linguística histórica. Visa-se explicar o funcionamento das línguas de hoje com o que era dito no passado, mas já não está mais em vigor.

A literatura não funciona assim. Um estudo iniciado no passado pode até ser visto como certa influência às tendências literárias no presente, mas seus registros e diretrizes dizem respeito apenas a determinado período do qual faz parte. Como muito do que já foi produzido se perde, é também papel da literatura buscar resgatar tais obras. Uma obra, por exemplo, nunca terá seu estudo definitivo, tampouco seu autor ou o movimento literário do qual fez parte. Por não ser exatamente palpável, o estudo literário é visto por muitos estudantes de línguas como defeituoso ou incompreensível.

Este estudo não deveria ser deixado apenas a historiadores. Registrar o tempo e as manifestações culturais da humanidade são muito úteis para os estudos antropológicos e psicológicos. A habilidade de contar histórias é, até então, restrita aos seres humanos, e pode levar a diferentes campos de pesquisa.