O emblemático silêncio das blogueiras

Não é preciso muito para perceber o caos instaurado no país nesse momento. Época de eleições, um momento decisivo para a manutenção ou a perda total de direitos dos brasileiros. Todos ou quase todos os usuários de internet nesse momento, seja lá qual for o posicionamento político, estão se manifestando intensamente em suas redes sociais. No entanto, existe uma classe de pessoas que parece não viver nesse mesmo Brasil de desigualdade social, de intolerância, de inclinação ao fascismo. Para elas, só existe as comprinhas em Miami, os recebidos da Sephora, os vídeos de tour por lojas da 25 de março. Isso mesmo, estou falando das blogueiras, ou como costumam chamá-las atualmente, digital influencers ou criadoras de conteúdo.

Claro que para toda regra há sua exceção, e uma ótima que posso citar aqui é a Carol Barreiros, conhecida na internet como It Falida. A paraense, que atualmente reside em São Paulo, fez uma maquiagem incrível, a qual ela mesma definiu como uma “saída do armário” de seu posicionamento político. Dias depois, em seu InstaStories, ela fez uma enquete perguntando o que seus seguidores achavam do famigerado silêncio das blogueiras nesse momento tão delicado. A maioria repudiou essa atitude. Fica então o questionamento: se o público quer saber o que suas blogueiras favoritas pensam, e isso inclui o pensamento político delas, por que esse silêncio todo?

Existe uma frase comumente dita em situações as quais opta-se por manter o status quo: “em time que está ganhando, não se mexe”. Claro que isso não vale para mim, para você e nem para a esmagadora maioria dos brasileiros. Mas por que uma blogueira, pertencente às classes A ou B, com viagens patrocinadas ao exterior e lucros que vão muito além do que a classe média imagina, abriria a boca nesse momento? Não é preciso muito para saber o que esse silêncio significa: conformidade, apoio velado ao fascismo, despreocupação com as classes sociais menos favorecidas. Em algumas situações, era até preferível o silêncio, como foi o caso de Lala Rudge. A socialite publicou em seu InstaStories uma série de imagens e textos expondo sua visão preconceituosa, retrógrada e elitista. Ela, assim como outras blogueiras, perdeu parcerias com marcas como Tiffany & Co, que optaram por não ter sua imagem vinculada a tais declarações.

Na contramão dessa tendência nefasta, com seu canal que ultrapassa os dois milhões de inscritos, a confeiteira Danielle Noce, juntamente com seu marido Paulo Cuenca, reiterou várias vezes em seu Instagram o repúdio ao candidato fascista e suas ideias retrógradas. O apoio entre os seguidores foi grande, mas a rejeição também. Ambos, porém, deixaram bem claro que tais seguidores não fariam falta. Uma atitude louvável, claro, mas que deveria ser muito mais normalizada do que de fato é. Por que, para cada “Dani Noce”, existem cinquenta “Lala Rudges” no armário?

É extremamente decepcionante ver pessoas com voz ativa, que poderiam falar por nós, se virando contra nós. Angela Davis disse que, numa sociedade racista, não basta não ser racista. É necessário ser antirracista. O mesmo se aplica a quaisquer outras situações de injustiça social. Está mais do que na hora de exigirmos representatividade. Afinal, nossa audiência não pode se resumir a sustentar recebidos de maquiagem e viagens patrocinadas.