Porque as minhas escolhas e o que escolheram para mim quase me levaram à ruína

Começo a escrever esse texto um pouco confusa, pois apesar de já ter as ideias correlacionadas, é o assunto mais complicado e nebuloso que já me propus a escrever neste blog.

Quando eu estava terminando minha graduação, pensava que iria sentir a realização da minha vida quando me formasse. Tinha um relacionamento estável, pensava em casar, arrumar um emprego e assim viver como todos esperavam que eu vivesse. O problema é que os caminhos foram se desviando a tal ponto em que a única coisa que me restou foi o tal diploma: estava sem namorado, sem amparo psicológico e tentando equilibrar um emprego que não fazia sentido para mim como se eu equilibrasse uma dúzia de pratos de louça.

Não é tão difícil entender o que aconteceu comigo depois disso. Deixei todos os pratos caírem, um a um, e me senti culpada, como sempre sentia quando algum plano na minha carreira acadêmica e profissional dava errado. Afinal, todos olham para mim como se eu fosse um exemplo a ser seguido. Tem sido assim desde 2001, eu diria, que foi o ano em que a professora da educação infantil me avançou para o ano seguinte. Lembro nitidamente que, a partir daí, todos os comentários de todos os professores com relação a mim envolviam frases como “vamos seguir o exemplo da Carol, tão nova e já consegue acompanhar nossa turma”. Claro que eu sentia gratidão por isso, pois já naquela época sentia uma vocação pessoal para ensinar e auxiliar meus colegas com dificuldades. O problema é que, ano após ano, eu fui comprando esse discurso. E esse discurso quase me matou.

Parece drástico falar assim, mas é a pura verdade. Eu cheguei a um ponto em que não conseguia mais me ver como indivíduo livre, estava sempre com algum tipo de dívida perante a sociedade. Se eu havia chegado onde cheguei, pensava, precisava ser motivo de orgulho para os meus pais e a minha família como um todo. A situação começou a mudar, porém, quando percebi que minha sexualidade era motivo de vergonha, de ofensa e de exclusão. Comecei, a partir daí, a rejeitar intensamente tudo o que representava conservadorismo e tradição. Mergulhei de cabeça no movimento estudantil, no movimento feminista e no movimento LGBT. Finalmente a tão sonhada liberdade, pensei.

O problema é que eu nunca me senti livre de fato, sempre me apegava a algum tipo de norma ou tradição dos meios onde eu frequentava. E para o movimento de esquerda, achava que eu não era subversiva o bastante ou que minha militância universitária de classe média jamais alcançaria as massas. Li ostensivamente sobre diversos assuntos, em busca não só de encontrar o meu lugar no mundo, mas uma luta pela qual valha a pena viver. E tudo para mim parecia claro como água que a minha posição social era aquela, perfeita e imutável. Acredito que o meu grande erro tenha sido não aprender a dissociar ideias de indivíduos. Hoje eu vejo que construí uma mega fortaleza de tijolos de vidro, onde problemas surgiam como pedras e mais pedras defronte este vidro.

Esse ano eu conheci muitas pessoas que, assim como eu, tinham fortalezas de vidro destruídas. Foi muito bom para mim ver que não era só eu a única a passar por tudo isso. Acho que eu não teria conseguido lidar com nem um por cento do que venho lidando sem essa ajuda. E por mais que esse texto possa não fazer sentido para ninguém, o que importa é que fez sentido para mim e eu consigo verbalizar sobre esse assunto sem censura ou repúdio. Estou tentando ressignificar uma vida inteira há apenas seis meses. Não tenho as respostas para tudo.

Esse texto pode se chamar uma versão longa e chata de “parem de perguntar sobre o meu futuro como se eu ainda fosse a mesma de sempre”. Sinto como se a Carolina tivesse sido morta e enterrada este ano. Agora eu renasci e sou um bebê. E como todo bebê, se eu me deparo com uma situação de confronto, eu choro.

O maior desabafo que esse blog já viu

Se você está lendo isso aqui, prazer. Meu nome é Carolina, tenho 21 anos e eu criei ao longo desses anos todos uma armadilha para mim mesma e para todos à minha volta.

Parece um jeito muito drástico de começar um texto, mas somente assim consegui por em palavras a figura mítica que alguns pensam quando o meu nome vêm à cabeça. Aquela menina fofinha, um pouco estranha e que fala coisas inteligentes. Bom, é o que todos acham. E talvez seja isso mesmo.

Tudo começou a dar errado quando eu deixei de fazer coisas que me agradavam para não macular a minha imagem santificada pela santíssima trindade (família, professores e amigos). Inúmeras vezes eu tive que aguentar calada e dar um sorrisinho amarelo quando as pessoas diziam com aquele entusiasmo sádico o “nossa, não esperava isso da Carol”.

Eu quero que você, que esteja lendo isso, saiba de uma coisa:

Se você algum dia já me disse que “não esperava isso de mim”, que “eu com certeza vou saber a resposta porque sou muito inteligente”, ou que “mas você tem muita cara de santinha para fazer isso”, você é um dos porquês. (citando aquela série controversa do Netflix)

Muita coisa vem acontecendo nesses últimos quatro anos, e para falar a verdade, eu ainda estou aprendendo a lidar comigo e com meus sentimentos. Talvez eu nunca aprenda, talvez eu melhore 10 ou 90% ao longo da vida. Pelo menos eu já consigo admitir algumas coisas para mim mesma, como o fato de que eu abandonei todas as coisas que eu gostava por causa do medo do fracasso. Sem perceber, eu mesma me tornei uma fracassada com essa atitude. Não há fracasso maior que isso. Tô tentando mudar isso aos poucos: comecei um bullet journal por causa da possibilidade de registrar hábitos e ver o meu progresso. Cortei o cabelo, parei de me importar com o que pensam sobre mim, consigo até perceber que parece que meu rosto criou vida novamente.

Acho que muitas pessoas notaram essa minha mudança, porque eu tenho atraído muita energia positiva, muitos comentários carinhosos e muitos elogios. Eu agradeço muito a todos que me deixam comentários fofos nas minhas fotos ou nos meus posts. Eu sei que para alguns isso pode parecer pura “vaidade virtual” e que eu estou pedindo por likes e seguidores, mas quem me conhece de verdade sabe que eu nunca fui de querer mudar minha essência para atrair público.

Tem dias que eu não tô bem. Tem dias que eu só busco o isolamento. Tem dias que eu me sinto tão pequena e tão inferior que não consigo nem levantar da cama para lavar o rosto e escovar os dentes. Eu não acho que esses dias irão chegar a um fim. Mas eu espero que diminuam, estou fazendo o possível para isso. E não é remédio nem psicólogo nenhum que podem fazer isso por mim.

Se você leu isso tudo e pensou “ah, eu já sabia”, legal, mas talvez esse texto não seja para você.

 

A tal da autoaceitação e formas de chegar a ela

Oi pessoal! Quanto tempo, né? Peço desculpas por todo esse tempo sem post, mas tive uns problemas com o computador seguidos de uma viagem. Já adianto também que a frequência de posts nesse blog irá cair com a volta às aulas e ao trabalho.

O assunto de hoje é um tanto delicado, mas acho que sou uma pessoa adequada para falar sobre ele. Essa autoaceitação é um conceito o qual nos é introduzido desde muito cedo, mas muitas vezes leva-se uma vida inteira para alcançá-lo. Ou nunca o alcançamos.

Eu sou uma pessoa bem nova (vá, gente, eu faço vinte anos em maio!) e essa tal autoaceitação começou a surgir na minha vida entre os meus dezessete e dezoito. Trata-se de um processo recente e que não está, como posso dizer, nos trinques. Ainda existem muitos dias que eu tenho vontade de desaparecer por me sentir incapaz, feia, dispensável, entre outros adjetivos nada legais. Mas existe um comportamento negativo de pessoas inseguras que eu tenho orgulho de ter eliminado da minha vida: PARAR DE SE IMPORTAR COM O QUE OS OUTROS PENSAM.

Durante muitos anos, isso podou a minha vida de maneiras estratosféricas. Muitas “amizades” que eu tive foram extremamente tóxicas para mim. Essas pessoas, mesmo hoje em dia, não devem se dar conta disso, e portanto, guardam apenas os momentos bons que passamos. No entanto, elas riam de mim pelos meus cabelos cacheados, os vestidos rodados que eu gosto, o batom vermelho, dentre vários itens que hoje são vistos como legais, descolados, bonitos. Muitas vezes, diziam que achavam várias coisas que eu gostava ridículas. E eu nunca tentei me impor: ficava calada, mudava meu comportamento, tentava me encaixar naqueles padrões e ficava por isso mesmo. Não tenho saudades da minha adolescência.

Eu fui uma criança que se destacava bastante pela sede de aprender e a imaginação sem limites. Somente essas duas coisas já me deixavam muito feliz e eu era capaz de me divertir sozinha na minha mente. Não tinha problemas para falar em público nem para lidar com pessoas, mas sabia muito bem aproveitar a minha própria companhia. Uma criança assim parece pronta para a vida, certo? Bom, até poderia ser. Quando entrei na quarta série, algo tinha mudado completamente nos meus colegas e no tratamento que a gente recebia.

Do nada, as pessoas decidiram que não éramos mais crianças, éramos “pré-adolescentes”. Só que tem um pequeno detalhe: eu sempre fui um ano mais nova que o resto da minha turma. Desde então, minha vida na escola começou a virar um inferno. “Nós somos pré-adolescentes, mas a Carol ainda é criança”. “Você não pode brincar com a gente ou falar sobre esses assuntos porque é muito nova.” E esse tipo de piada continuou por muitos anos, até as pessoas perceberem que eu estava conquistando coisas mais cedo que elas. Hoje os comentários são mais “mas você vai se formar com vinte anos? Que inveja”. Ainda bem que o mundo gira, não é mesmo?

Estou escrevendo esse texto porque suponho que muitas pessoas irão se identificar comigo. Queria que minhas palavras chegassem ao máximo de pessoas que estão passando por essa fase. Não são só adolescentes que têm problemas de autoaceitação, e tratar isso como “um drama que vai passar” é uma das piores coisas que alguém pode fazer.

Por fim, eu gostaria de dar algumas dicas que acredito serem úteis:

  • Você não é obrigado(a) a se manter em amizades tóxicas. Mudar de escola, de turma, de grupo de amigos não significa arregar, nem dar as costas para o problema. Se os seus colegas não te deixam em paz, afaste-se! Se afastando, você terá uma visão mais clara das coisas e poderá tomar a atitude necessária.
  • Não deixe que ninguém diga o que você deve vestir, quais músicas deve ouvir, como deve cuidar do seu cabelo, etc. TODAS OS TIPOS DE CORPO E TODOS OS TONS DE PELE PODEM USAR O QUE QUISEREM. Não existe isso de “gordinhas não podem x”, “negras não podem y”. Podem sim! O que não pode é ser machista, racista, homofóbico, gordofóbico, ou qualquer outro tipo de preconceituoso.
  • É muito difícil para a gente acreditar nisso, mas muitas vezes, uma pessoa que quer nos atingir tem inveja da gente. Eu lembro que, quando descobri isso, comecei a agir com extrema grosseria para me defender. Não foi a melhor tática da vida e não vou recomendar para você, mas saiba usar isso a seu favor.

Espero que todos se sintam, de alguma forma, motivados ao ler esse texto. Deu bastante trabalho colocar tantos sentimentos num post de blog. Quem quiser conversar comigo sobre isso, sinta-se livre em me mandar mensagem no Facebook ou mesmo um e-mail. Até mais!