Crônica: Talvez você goste do gosto – #LecaHaine

Apostei que ia dar certo, e deu. Arregacei as mangas, peguei a forma, untei, ou melhor, besuntei com a manteiga travestida de margarina. Fiz a massa, fofinha, gostosinha, aerada. Pus à assar no forno convencional, como convencional era tudo o que me exigiam que fosse. Deixei no calor pelo tempo certo e também certo foi o tempo para esfriar. Preparei cobertura com ótimos ingredientes, joguei por cima sem calcular o gasto, com total desapego. A massa fartou-se de tanta cobertura e também de recheio. Joguei por cima as últimas cerejas que tinha, guardadas há tempos no fundo d’alma. Recobri com amor, muito amor, você não imagina o quanto. Estava lá, lindo, o meu bolo, a minha obra prima, o meu tesouro. Continua lá, esperando alguém que o queira levar para casa.

Crônica: Hora da Janta – #LecaHaine

“-Abre a porta, Juana! Essa menina parece que é lerda! Precisa esmagrecer!grandma-420115_960_720 (1)

-Ô de casa.

-Se achegue, comadre. Como vai a gota do compadre, desinchou?

-Que nada, comadre, continua doendo feito a peste.

-Êta que tenho pena desse homem. Ô Juana, faz café pra nós!

-Quem é essa, comadre?

-Não se lembra, é minha subrinha Juana que veio do Norte…só precisa esmagrecer!

-Pois não é? Também achei. Mas tem a cara bonita que só!

-Se tem! Puxou as mulhé da família. Mas tem que ter força de vontade, só precisa esmagrecer.

-É mesmo, desse jeito, periga não casar.

-Num já falei cum’ela? Mas ela tem juízo, um dia vai tê vaidade e esmagrecer…

-Ô si vai… tenho que ir…inté comadre!

-Inté comadre, vai com Deus.

-Eita que tenho pena dessa minha comadre, aquele marido dela… sei não. Tá mais pra preguiça…

-Mas não é doença, minha tia, a tal da gota?

-Que nada, Juana. Todo mundo sabe que é dengo do danado. Desde que conheço os dois, é essa lenga lenga…a pobre se mata no tanque, enquanto ele passa a vida no colchão…

-Coitado!

-Coitado nada!

-Só pensei…

-Pois não pense, não. Tá anoiteceno…vê se faz mungunzá, cuscuz, carne frita e farofa de ovo pra janta…e não esquece da banana cozida e da batata doce que seu tio gosta. Põe bastante mantega de garrafa por cima, viu?

-…Essa menina! É muito boazinha… só precisa esmagrecer…”

#LecaHaine

Crônica: A Rosa – #LecaHaine

Como não ser feliz, sendo tão bela?rosaessared

Como simplesmente esquecer que é admirada por todos e por isso sofrer como todos os mortais? Impossível…

E o que dizer da morada que habita, coberta por um tapete verde de folhas submissas e uma janela para o mundo de quem passa pela rua?

Estamos falando da rosa, perfeita, etérea, eterna, a rainha dos desejos de cada um.

Estamos falando daquela que transmuta irritação em sorriso e cujo perfume traz as mais doces lembranças guardadas no passado.

Além de tudo, é cuidada por aqueles que têm o coração puro e que por isso mesmo são capazes de enxergar a beleza onde muitos não conseguem ver.

Como não ser feliz, já que é refrescada pela brisa e aquecida por um sol radiante todas as manhãs? E quando está entediada, cansada e murcha, se reconforta com um banho de orvalho noturno que a refresca e a deixa pronta para voltar a ser bela no dia seguinte?

É completamente inadmissível para a rosa, guardar uma gota sequer de rancor ou de mágoa, pois em suas pétalas moldadas à perfeição cabem apenas os sentimentos nobres emanados por aqueles que a observam.  A rosa é do sol e também da lua, de cada um que a mira, enfim.

Fica lá, intocável, plena e consciente do seu papel de dona do jardim cercado pelas grades protetoras de quem diz: A rosa é minha. E você pode admirá-la. Nada mais.

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Crônica: Quando foi mesmo? – #LecaHaine

Quando foi mesmo, que comer passou a ser mecânico? Ouvir apenas o barulho da própria mastigação é tudo o que tenho? Sorrir e fazer elogios é apenas pró-forma? Assim como agradecer, pedir licença e tudo o mais.

Não sei quando foi que os planos cessaram, o brilho no olhar apagou. Não sei quando pensar em ir a uma festa deixou de ter graça e ficar em casa deitada passou a ser a melhor coisa a se fazer na vida.

Acredita? Até mesmo olhar o mapa e escolher um local para viajar deixou de ser interessante… talvez porque onde quer que se vá,  vou levar a bagagem do aqui e do agora junto.

Em que tempo deixei de acordar com pressa e pisar no chão frio porque não dava tempo calçar o chinelo já que havia tanto a viver. Bendito chinelo que hoje calço na maior calma do mundo. Pra que correr com o chinelo se os problemas e a falta deles estarão lá, depois da porta de quarto, sempre me esperando com a maior cara de pau desse mundo?

E quando foi mesmo, que conversar, tanto faz, como tanto fez, já que sei exatamente tudo o que todos vão dizer? E planejar, pra quê? Se o mundo só muda se todos mudarem, mas ninguém quer mudar de verdade?

Quando e onde, começou toda essa inércia que dizem vir com a idade, mas difícil de acreditar porque os poetas nunca a tem, ou será que nunca envelhecem? Seria eu, simples mortal, a sentir tudo isso sozinha enquanto todos os demais vivem intensamente até o fim?

Seria eu, exceção? A única sem tempo para mim e para as minhas coisas tão simplesinhas?

Seria?

 

#LecaHaine