Não preciso falar do Cris, mas vou mesmo assim

Uma resposta não requisitada aos dois textos mais populares do momento, de Gregório Duvivier e Rafinha Bastos.

Conheci o Cristiano no meu terceiro dia de aula da UnB. Eu tinha 16, e ele, 18. Por intermédio de uma menina que eu tinha acabado de conhecer, aceitei carona dele. Como se espera de um recém-habilitado, ele dirigia muito mal (sem julgamentos, pois passei pela mesma situação anos depois) e tinha um semblante assustador. Eu que não sou religiosa nem nada fiquei rezando durante o trajeto inteiro. Quando cheguei em casa, contei a alguns amigos o que aconteceu e eles me deram um sermão imenso. “Você é louca de aceitar carona de um estranho, poderia ter sido estuprada”.

A gente se encontrou uma segunda vez, em que ele me viu passando pelo corredor e gritou comigo. “Que pessoa insuportável, acho que vou ter que dar um jeito de fugir dele”, pensei. Não foi o que aconteceu. Semanas depois, lá estava eu, bem masoquista, pegando carona com o menino esquisito de novo. E foi nesse dia que eu descobri que ele era a pessoa mais incrível e maravilhosa do mundo. Convenientemente, pegamos um engarrafamento de 3 horas. Eu estava com planos de entrar muda e sair calada, mas conversamos sobre tantas coisas que as três longas horas não foram suficientes.

Depois desse dia, não nos desgrudamos mais. A carona virou rotina e, com a prática, não ficou mais tão assustadora. Cris passou a frequentar minha casa, conheceu meus pais, jantava com a gente e até ia nos almoços de família. Mas nós só éramos amigos!

Graças a mim, ele leu O Retrato de Dorian Gray, 1984 e O Apanhador no Campo de Centeio, meus três livros favoritos da vida. Graças a ele, eu li To Kill a Mockingbird e contos de horror do Edgar Allan Poe. A gente passou a trocar recomendações de livros, filmes e músicas o tempo todo. Na época, eu ouvia bastante The Smiths, principalmente porque tinha um CD no carro dele. Não viajamos o mundo – ainda não –, mas a primeira viagem que fiz sem meus pais foi com ele.

Demoramos dois anos para descobrir que gostávamos um do outro, porque entre nós nunca existiu a fase do “ficar”. “Eu gosto de você”, “eu também gosto de você”, e pronto, já estava acontecendo. Nós não somos namorados, somos melhores amigos que por acaso namoram. E, como melhores amigos, nós já brigamos bastante também. Uma vez, gritei e fiz um escândalo porque ele queria usar uma colher de aço numa panela antiaderente. Mas aí também é vandalismo, né?

Já fizemos um ranking dos melhores restaurantes e cafés da cidade, só ouvimos a rádio que toca jazz e música clássica, ensinei para ele a diferença entre vertentes feministas, ele me ensinou a programar em Python. Essas coisas são importantes e fazem parte do que somos, mas também cagamos de porta aberta, já esqueci calcinha no box dele, ensinei ele a fazer o cronograma capilar no banho, aprendi com ele a soltar pum perto de alguém e não morrer tanto de vergonha, e ele é a única pessoa com quem consigo dividir comida.

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Crônica: Minhas horas – #LecaHaine

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Foto: Pixabay.com

 Acompanhar o mundo e o tempo de uma forma que todos acompanham. Essa é uma questão delicada. Difícil explicar que algumas pessoas veem o mundo em cores diferentes da paleta da maioria dos demais. Também é muito difícil explicar que muitas vezes o ar é irrespirável, apenas serve para encher os pulmões e assim manter uma vida morna. Decididamente, não se trata do mesmo ar daqueles que veem um novo amanhecer cheio de oportunidades a cada dia.

Maravilhoso seria se pudéssemos escolher o nosso próprio relógio. É claro que não o aparelho que se coloca no pulso ou na parede que todos conhecem, mas um relógio único e absoluto que medisse o tempo da forma que a pessoa desejasse. O meu teria uma manhã muito mais longa, com espaço para muitas xícaras de café até me despertar totalmente. E também um sol claro, mas tão claro que daria vontade de ficar debaixo dele apenas pensando na vida. O almoço seria mais lento, com direito a uma boa rede depois. O período da tarde, esse eu mataria na unha, ou melhor, nos ponteiros, pois andariam tão rápido quanto um bando de lebres famintas.

Depois do jantar, horas a fio de muito tempo para ler tudo o que eu quisesse. Podia ser o panfleto da caixa do correio, as notícias do dia na internet, o livro que o amigo presenteou no Natal, a revista de decoração preferida. Depois, muitas xícaras de chá adoçado com mel antes de um bom filme, porque ninguém é de ferro.

Dormir dependeria do dia, ou melhor, da noite.  O relógio teria que ser ajustado de acordo com o humor e com o clima. Noites chuvosas  teriam que ter um sono bem longo, com alguns rápidos despertar apenas para ouvir o barulhinho no telhado. Também deveriam ser longas as noites frescas, ao lado dos melhores amigos.  Já os compromissos sociais chatos, que a gente vai porque não saber dizer não, haveriam de ter noites bem rápidas, assim como aquelas  que antecedem um compromisso legal no dia seguinte. Também quereria uma noite mais curta caso pudesse  caminhar na  areia fresca da praia no dia seguinte.

Lendo esse texto, alguém pode pensar: E o trabalho, não se trabalharia?  Bem… claro que o relógio dependeria do trabalho de cada um, pois trabalho é igual a chapéu, cada um tem o seu e gosta ou não gosta.

O certo é que meu relógio teria um comportamento um tanto quanto irregular, como irregulares também somos muitos de nós: Ser ou não ser? Fazer ou não fazer? Ir ou não ir? Sei lá…entende?

#LecaHaine

Crônica : Eu e minhas entranhas – #LecaHaine

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Foto: https://pixabay.com/

Viver dói nas entranhas. À vezes dói fígado, rim, estômago. Dói por dentro do coração e a gente não sabe se vai ou se fica. Apenas fica sentindo aquela dorzinha fraquinha e fininha que enche a barriga sem que agente saiba o porquê daquilo estar doendo.

O que seria se não me chega nenhum problema agora? Talvez tristeza desse mundo ou de outro? Talvez um amor largado à beira da vida, desses que foram infinitos enquanto duraram?

Essas dores são assim. Doem até quando querem. Não tem hora e nem lugar, tampouco dizem quando vão embora. Apenas se apoderam de nós e ficam instaladas por muito ou pouco tempo. Às vezes, nos fazem passar vergonha porque queremos estar no escuro do quarto, quietinhos, enquanto todo mundo quer se divertir.

E o pior é que quando saem, vão embora sem nem mesmo se despedir. Apenas você amanhece e vê que não tem nada doendo. Então recomeça a viver até que um belo dia, do nada, lá vem a dor doer de novo.

É pegar ou largar, viver ou não viver. E temos que viver porque a vida não espera a gente ficar pensando se vive ou não vive. Tem que levantar da cama e fazer o que tem que ser feito, dizer as palavras apropriadas e sorrir na medida certa. Só isso. Depois, pode voltar para casa à noite e começar tudo de novo.

O ônibus chega e mal buzina e já é hora de entrar e de seguir adiante. Ele vem apinhado de gente fazendo a mesma coisa: vivendo do jeito que dá, com as barrigas cheiras de dores doendo devagar.

Tem uns felizardos que nunca tem essas dores, mas são raros. Eles não têm dores por dentro, nem de amores e nem de nada que deixaram para trás. Nem mesmo saudades das boas lembranças. E seguem no ônibus da vida sem reclamar e sem doer. Acredito que sem nem mesmo viver, porque viver dói.

 

 

Crônica: Da série, escrever porque brota d’alma – #LecaHaine

maquinaEscrever, escrever, escrever. Esquecer a chuva lá fora e tudo mais que vai aqui dentro, inclusive a tempestade de pedras. Não precisa ser inédito e nem perfeito. E nem ter estilo… Será que tenho? Escrever igual a Clarice, que era única, ou a Exupéry, doce feito favo de mel?

Queria ser grande, desde criança, para olhar o mundo de frente. E cresci olhando para as mazelas das pessoas e minhas próprias. De que adiantou se não posso mais nada, a não ser a longa espera do porvir?

Melhor ter ficado pequenina, agarrada à barra da saia de um adulto disponível qualquer. Queria bem mais do que o que vivo hoje,  e muito menos do que tudo o que passei, pois tudo é tão inoportuno nesse mundo de meu Deus.

Cursar faculdade, arrumar emprego, ter grana…Sonhos que todos sonham e que depois de um certo tempo, esquecem que sonharam e voltam a sonhar com algo novo. E eu, que faço com o que sonhei  e o que de novo posso esperar se só continuo a sonhar?

#LecaHaine