Crônica: Minhas horas – #LecaHaine

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 Acompanhar o mundo e o tempo de uma forma que todos acompanham. Essa é uma questão delicada. Difícil explicar que algumas pessoas veem o mundo em cores diferentes da paleta da maioria dos demais. Também é muito difícil explicar que muitas vezes o ar é irrespirável, apenas serve para encher os pulmões e assim manter uma vida morna. Decididamente, não se trata do mesmo ar daqueles que veem um novo amanhecer cheio de oportunidades a cada dia.

Maravilhoso seria se pudéssemos escolher o nosso próprio relógio. É claro que não o aparelho que se coloca no pulso ou na parede que todos conhecem, mas um relógio único e absoluto que medisse o tempo da forma que a pessoa desejasse. O meu teria uma manhã muito mais longa, com espaço para muitas xícaras de café até me despertar totalmente. E também um sol claro, mas tão claro que daria vontade de ficar debaixo dele apenas pensando na vida. O almoço seria mais lento, com direito a uma boa rede depois. O período da tarde, esse eu mataria na unha, ou melhor, nos ponteiros, pois andariam tão rápido quanto um bando de lebres famintas.

Depois do jantar, horas a fio de muito tempo para ler tudo o que eu quisesse. Podia ser o panfleto da caixa do correio, as notícias do dia na internet, o livro que o amigo presenteou no Natal, a revista de decoração preferida. Depois, muitas xícaras de chá adoçado com mel antes de um bom filme, porque ninguém é de ferro.

Dormir dependeria do dia, ou melhor, da noite.  O relógio teria que ser ajustado de acordo com o humor e com o clima. Noites chuvosas  teriam que ter um sono bem longo, com alguns rápidos despertar apenas para ouvir o barulhinho no telhado. Também deveriam ser longas as noites frescas, ao lado dos melhores amigos.  Já os compromissos sociais chatos, que a gente vai porque não saber dizer não, haveriam de ter noites bem rápidas, assim como aquelas  que antecedem um compromisso legal no dia seguinte. Também quereria uma noite mais curta caso pudesse  caminhar na  areia fresca da praia no dia seguinte.

Lendo esse texto, alguém pode pensar: E o trabalho, não se trabalharia?  Bem… claro que o relógio dependeria do trabalho de cada um, pois trabalho é igual a chapéu, cada um tem o seu e gosta ou não gosta.

O certo é que meu relógio teria um comportamento um tanto quanto irregular, como irregulares também somos muitos de nós: Ser ou não ser? Fazer ou não fazer? Ir ou não ir? Sei lá…entende?

#LecaHaine

Crônica : Eu e minhas entranhas – #LecaHaine

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Viver dói nas entranhas. À vezes dói fígado, rim, estômago. Dói por dentro do coração e a gente não sabe se vai ou se fica. Apenas fica sentindo aquela dorzinha fraquinha e fininha que enche a barriga sem que agente saiba o porquê daquilo estar doendo.

O que seria se não me chega nenhum problema agora? Talvez tristeza desse mundo ou de outro? Talvez um amor largado à beira da vida, desses que foram infinitos enquanto duraram?

Essas dores são assim. Doem até quando querem. Não tem hora e nem lugar, tampouco dizem quando vão embora. Apenas se apoderam de nós e ficam instaladas por muito ou pouco tempo. Às vezes, nos fazem passar vergonha porque queremos estar no escuro do quarto, quietinhos, enquanto todo mundo quer se divertir.

E o pior é que quando saem, vão embora sem nem mesmo se despedir. Apenas você amanhece e vê que não tem nada doendo. Então recomeça a viver até que um belo dia, do nada, lá vem a dor doer de novo.

É pegar ou largar, viver ou não viver. E temos que viver porque a vida não espera a gente ficar pensando se vive ou não vive. Tem que levantar da cama e fazer o que tem que ser feito, dizer as palavras apropriadas e sorrir na medida certa. Só isso. Depois, pode voltar para casa à noite e começar tudo de novo.

O ônibus chega e mal buzina e já é hora de entrar e de seguir adiante. Ele vem apinhado de gente fazendo a mesma coisa: vivendo do jeito que dá, com as barrigas cheiras de dores doendo devagar.

Tem uns felizardos que nunca tem essas dores, mas são raros. Eles não têm dores por dentro, nem de amores e nem de nada que deixaram para trás. Nem mesmo saudades das boas lembranças. E seguem no ônibus da vida sem reclamar e sem doer. Acredito que sem nem mesmo viver, porque viver dói.

 

 

#12meses12coisas: 12 filmes que recomendo

O post a seguir faz parte da blogagem coletiva #12meses12coisas.

As Horas (2002)

O filme baseia-se no livro de Michael Cunningham, que, por sua vez, se inspirou no romance “Mrs. Dalloway” de Virginia Woolf. O enredo conta a história de três mulheres que vivem e épocas e em locais diferentes, Virginia Woolf (Nicole Kidman), vive Laura Brown (Julianne Moore) e Clarissa Vaughn (Meryl Streep), mas que carregam consigo sentimentos muito parecidos de angústia e insatisfação. É um filme inovador, que a princípio nos confunde, mas com o desenrolar da história é muito gostoso descobrir o que o autor ( roteirista) quis dizer. Muito bom!

O leitor (2008)

Conta a história do adolescente Michael Berg (David Kross) , de 15 anos, que se relaciona amorosamente com Hanna Schmitz (Kate Winslet), uma mulher mais velha e analfabeta. Esse fato, que para ela é uma vergonha, é muito bem conduzido na história, onde, mais tarde, quem sente vergonha é o próprio Michel, já adulto, que decide manter em segredo o relacionamento que manteve durante meses com Hanna. É um filme delicado e sutil, que nos leva a pensar.

Edward Mãos de Tesoura ( 1991)

lírico e ao mesmo tempo denso, fortemente baseado numa fantasia, porém, com reações humanas muito reais. É uma linguagem inovadora e própria dos que tem sentimentos a ofertar e se identificam com Edward, a criação de um cientista que o fez com tesouras no lugar das mãos. Diferente do que seria mais lógico acontecer, Edward é hostilizado não pelas tesouras, mas pelo coração puro e doce que possui. Excelentes atuações de Peg Boggs (Dianne Wiest), uma vendedora da Avon que acidentalmente descobre Edward (Johnny Depp). O filme é inesquecível.

Que Horas Ela Volta? (2015)

um filme nacional de primeira linha. Os diálogos, a principio sem qualquer inovação, falam de um mundo que só as empregadas domésticas conhecem. É um ambiente onde comer o sorvete dos patrões ou entrar na piscina, ainda que raramente, é algo inadmissível, embora a patroa a “considerasse” alguém da família. Regina Casé e Camila Márdila estão ótimas em seus papeis, assim como todo o elenco.

As Sufragistas (2015)

Como criar o filho e cuidar da casa e do marido tendo que trabalhar horas a fio, sem qualquer direito trabalhista? Esse é o pano de fundo das Sufragistas, que no início do século 20 decidem dar um basta a décadas de manifestações pacíficas querendo o direito de votar no Reino Unido, sem qualquer sucesso. Mesmo sem apoio das próprias mulheres, um grupo militante decide coordenar atos de insubordinação, quebrando vidraças e explodindo caixas de correio, para chamar a atenção dos políticos locais à causa. Maud Watts, interpretada pela atriz Carey Mulligan, sem formação política, descobre o movimento e passa a cooperar com as novas feministas depois que é presa e tida como uma das militantes do movimento. O filme é muito bom.

A Vida é Bela (1999)

É um filme poético, apesar do cenário de horror num campo de concentração nazista, onde um pai decide manter a inocência e a esperança de seu filho. As mortes e a violência ao redor recebem uma interpretação toda especial do pai, interpretado por Roberto Benigni a fim de que seu filho não sofra. Apesar do final triste, o expectador fica com a impressão de que, caso queira, a vida realmente pode ser bela, ainda que apenas por alguns momentos.

À Procura da Felicidade (2007)

Após ser abandonado pela esposa, Chris Gardner (Will Smith) é obrigado a cuidar sozinho do filho de cinco anos, enfrentando sérios problemas financeiros. Apesar de ter que apelar para a ajuda social disponível, ele consegue dormir e comer de graça juntamente com o garoto e assim lutar por uma vaga de estagiário numa grande empresa, o que culminará, mais tarde, com um bom salário e um emprego definitivo. O maior problema é que eles não tem como se manter até que a situação melhore e a única coisa que os une é o amor e a esperança de um amanhã melhor. Nota dez!

Kramer X Kramer (1978)

Conta a história de um casal com pensamentos diferentes. Ele só pensa em trabalho. Ela não suporta mais o papel de mãe/esposa. Ted Kramer é o típico homem dos anos 70 que vive para o seu trabalho. Joanna por sua vez, uma dona de casa entediada com sua vida “morna”. Certo dia, Joanna resolve sair de casa e deixar sua vida e filho para trás. Cabe a Ted criar de verdade o filho que ele nunca havia criado, pois nunca se envolvia com os problemas relativos ao garoto. Após conquista a plateia e o filho como senod um bom pai, o filme passa por uma reviravolta quando Joanna retorna e quer a guarda do filho. Começa aí, no tribunal, a luta pela guarda do filho no caso Kramer X Kramer. Uma lição de atuação com os atores inigualáveis a Dustin Hoffman e Meryl Streep. Ótimas atuações e roteiro.

Central do Brasil (1998)

É um filme nacional onde Fernanda Montenegro (Dora) brilha mais uma vez interpretando uma mulher com comportamento dúbio que oscila da indiferença ao amor. Com pena do garoto órfão Josué (Vinícius de Oliveira), Dora decide ajudá-lo e levá-lo até seu pai, que mora no sertão nordestino. No meio desta viagem pelo Brasil eles encontram obstáculos e descobertas enquanto o filme revela como é a vida de pessoas que migram pelo país na tentativa de conseguir melhor qualidade de vida ou poder encontrar seus parentes deixados para trás. Uma grande história!

Beleza Americana (2000)

Em princípio é uma história simples da classe média norte americana, só diálogos muito bem escritos e fundamentados, aliados à excelente atuação do ator Kevin Spacey mostra o quanto a sociedade é sórdida e falsa, baseada em valores morais que dificilmente são seguidos pelas pessoas que gostam de apontar os erros dos outros. Muito bom, vale a pena assistir para poder pensar a respeito do que vivemos hoje em dia frente ao mundo das rede sociais.

Forrest Gump – O Contador de Histórias (1994)

O filme conta uma história ao longo de 40 anos nos Estados Unidos, vistos pelos olhos de Forrest Gump (Tom Hanks), um rapaz com QI abaixo da média e boas intenções em tudo o que faz. Por obra do acaso, ele consegue participar de momentos cruciais, como a Guerra do Vietnã e Watergate, mas continua pensando no seu amor de infância, Jenny Curran. Apesar d e longo, o filme não cansa devido às doces nuances paresentadas pela personagem brilhantemente interpretada por Hanks. A impressão que se tem é que ninguém mais poderia ter feito esse filme. Maravilhoso!

Amor (2013)

Georges (Jean-Louis Trintignant) e Anne (Emmanuelle Riva) são um casal de aposentados que foram bastante unidos ao longo da vida. São apaixonados por música e livros e vivem em um amplo apartamento. O problema começa quando ela desenvolve uma doença que não é informada durante o filme, mas que pelos sintomas trata-se da Doença de Alzheimer, uma enfermidade incurável que se agrava ao longo do tempo. Apesar de terem uma filha que é musicista, Georges não conta com a ajuda de ninguém para cuidar da esposa, que ele vê caminhar cada vez mais para o sofrimento e desespero de uma doença que requer muitos cuidados e paciência. Ele prossegue cuidando dela até o fim, quando ocorre algo, a princípio chocante, mas que foi acordado com a esposa muito antes. É um excelente filme, que nos leva a refletir sobre o fim de nossas vidas.

Crônica: Da série, escrever porque brota d’alma – #LecaHaine

maquinaEscrever, escrever, escrever. Esquecer a chuva lá fora e tudo mais que vai aqui dentro, inclusive a tempestade de pedras. Não precisa ser inédito e nem perfeito. E nem ter estilo… Será que tenho? Escrever igual a Clarice, que era única, ou a Exupéry, doce feito favo de mel?

Queria ser grande, desde criança, para olhar o mundo de frente. E cresci olhando para as mazelas das pessoas e minhas próprias. De que adiantou se não posso mais nada, a não ser a longa espera do porvir?

Melhor ter ficado pequenina, agarrada à barra da saia de um adulto disponível qualquer. Queria bem mais do que o que vivo hoje,  e muito menos do que tudo o que passei, pois tudo é tão inoportuno nesse mundo de meu Deus.

Cursar faculdade, arrumar emprego, ter grana…Sonhos que todos sonham e que depois de um certo tempo, esquecem que sonharam e voltam a sonhar com algo novo. E eu, que faço com o que sonhei  e o que de novo posso esperar se só continuo a sonhar?

#LecaHaine