Crônica : Eu e minhas entranhas – #LecaHaine

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Viver dói nas entranhas. À vezes dói fígado, rim, estômago. Dói por dentro do coração e a gente não sabe se vai ou se fica. Apenas fica sentindo aquela dorzinha fraquinha e fininha que enche a barriga sem que agente saiba o porquê daquilo estar doendo.

O que seria se não me chega nenhum problema agora? Talvez tristeza desse mundo ou de outro? Talvez um amor largado à beira da vida, desses que foram infinitos enquanto duraram?

Essas dores são assim. Doem até quando querem. Não tem hora e nem lugar, tampouco dizem quando vão embora. Apenas se apoderam de nós e ficam instaladas por muito ou pouco tempo. Às vezes, nos fazem passar vergonha porque queremos estar no escuro do quarto, quietinhos, enquanto todo mundo quer se divertir.

E o pior é que quando saem, vão embora sem nem mesmo se despedir. Apenas você amanhece e vê que não tem nada doendo. Então recomeça a viver até que um belo dia, do nada, lá vem a dor doer de novo.

É pegar ou largar, viver ou não viver. E temos que viver porque a vida não espera a gente ficar pensando se vive ou não vive. Tem que levantar da cama e fazer o que tem que ser feito, dizer as palavras apropriadas e sorrir na medida certa. Só isso. Depois, pode voltar para casa à noite e começar tudo de novo.

O ônibus chega e mal buzina e já é hora de entrar e de seguir adiante. Ele vem apinhado de gente fazendo a mesma coisa: vivendo do jeito que dá, com as barrigas cheiras de dores doendo devagar.

Tem uns felizardos que nunca tem essas dores, mas são raros. Eles não têm dores por dentro, nem de amores e nem de nada que deixaram para trás. Nem mesmo saudades das boas lembranças. E seguem no ônibus da vida sem reclamar e sem doer. Acredito que sem nem mesmo viver, porque viver dói.

 

 

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Leca Haine

Leca Haine é jornalista e dedicou-se ao serviço público (comunicação) durante 30 anos em Brasília/DF. Após alguns cursos de roteiro para TV e cinema, além de trabalhos publicados via Web, optou pela narrativa contemporânea em seu romance de estreia, “A Torre”, onde descreve o crescimento humano das personagens de forma surpreendente e inovadora. Atualmente, escreve o último livro de uma série de quatro volumes dedicados ao público infanto-juvenil a serem lançados a partir de 2016.

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