Crônica: Natal nosso de cada dia – #LecaHaine

Você pode fingir que o Natal não existe. Pode fechar os olhos ao clima de fraternidade que envolve o pessoal do local de trabalho, da rua onde você mora, da universidade onde estuda. Sim! Você pode tudo. Pode propagar que o Natal é consumismo, que é apenas uma desculpa para o comércio vender mais ou que Jesus não nasceu no dia 25 de dezembro, mas sim numa outra data qualquer.

Você pode se recusar a ajudar o parente que insiste em montar árvore na sala já tão cheia de móveis, pode comer pão com manteiga e ovo enquanto todos vão se reunir na casa da tia ou da avó. Você é dono de si. Você pode tudo.

Mas tem uma coisa que você não pode. É impossível, em determinado momento da sua vida, abrir o álbum de fotos da família e se inserir numa página em que você nunca esteve. É difícil relembrar as risadas, os abraços, os discursos do tio que bebia um pouco mais de vinho se você não compartilhou de tudo isso. É completamente improvável sentir-se inserido num lugar onde você nunca esteve, ver o registro de um sorriso que você nunca deu para a câmera, sentir a mão no ombro do primo que veio de longe justamente para comemorar aquela data.

Sei, você simplesmente não acredita no poder do Natal e não vê nada de interessante nele. Mas já pensou se algum dia, lá na frente, você descobrir que o Natal é multiforme, que existe no coração de cada um exatamente do jeitinho que cada um o faz acontecer? Não entendeu? Simples: O Natal é muito mais do que o aniversário de Jesus. É a desculpa perfeita para a gente se olhar nos olhos, dizer o quanto gostamos daquela pessoa que passamos o ano todo sem ver e que no dia 24 aparece sem mais nem menos, para nos dar um abraço.

É a ocasião ideal para por a colcha nova na cama, vestir a domingueira, sair da dieta, ligar para quem a gente tem vergonha, fazer novas dívidas… É um tempo destinado a chorar, fazer planos, prometer que vai melhorar, dar vexame, desabafar com a pessoa ao lado mesmo a conhecendo superficialmente.

O Natal também tem um monte de clichês, comerciais que nos fazem chorar, cartões açucarados, amigos secretos intermináveis com a troca de lembrancinhas. Tem rabanada, panetone, peru, farofa com uva passa e o pavê de sempre, comidas que não combinam bem em nenhuma outra ocasião, a menos que você fique sem comer por mais de sete dias.

Tem muita coisa que você pode achar chata nessa época. Pode até ser que os cristãos mudem de ideia e façam com que o Natal deixe de existir algum dia. (Alguém acreditaria que Brasília estaria batendo nos 40 graus e que o Rio Doce deixaria de ser doce em tempo recorde?). Pessoalmente, contudo, acho quase impossível isso acontecer. Quer saber por quê? Simplesmente porque Natal é Natal. E não tem nada igual.

#LecaHaine