Sobre “feminismo radical” e o falso controle sobre seu próprio corpo

Tirando um pouco a poeira desse blog, decidi dividir as minhas experiências e opiniões sobre um assunto amplamente discutido, porém pouco estudado. Muitos querem meter o bedelho, criticar e dizer o que consideram pertinente ou não no feminismo, sem nem entender os motivos que levaram a tal ideologia.

Pois bem. Uma coisa que nunca entendi é o tal do feminismo radical. “Mimimi, pobres homens, somos oprimidos por esse feminismo radical”. Epa, espera aí. Feminismo, por definição, é a luta por igualdade de gênero. Como diabos pode ser considerada uma ideia radical? Não deveria ser uma busca natural do ser humano? “Ah, mas Fulaninha diz que é feminista, mas quer exterminar todos os homens!” Quanto a isso, não duvido que exista, mas por favor, não chame Fulaninha de feminista. MUITO MENOS feminista radical.

Pobres homens, coitadinhos. Passam o dia objetificando corpos alheios, ditando regras sobre os mesmos, e ainda se acham no direito de chamar alguém que vá contra isso de feminazi. A esses indivíduos, eu respondo: feminazi sim, com orgulho, obrigada.

Uma coisa que me chamou a atenção recentemente foi o temido assunto da depilação. Mulheres são constantemente oprimidas (até mesmo por mulheres) e forçadas a se depilarem. Muitas refutarão essa ideia, alegando inclusive que “se depilam para si mesmas”. Sim, mas procurem questionar a fundo o porquê dessa decisão. Não é muito difícil.

Vou então dividir a minha história, que acredito ser semelhante a de muitas garotas.

Por volta dos meus doze anos, meu corpo começou a passar por algumas mudanças e seus pelos ficaram mais aparentes. Eu morria de vergonha deles, mas minha mãe dizia que ainda não era a hora de me depilar. Passei a só usar calças no colégio, por mais que fizesse calor. Os pelos da sobrancelha, no entanto, não podiam ser escondidos, e frequentemente fui alvo de comentários desagradáveis.

“Nossa, tá na hora de você fazer essa sobrancelha!” “Menina preguiçosa, não se depila não?”

Por vezes, chegava em casa chorando. Minha mãe, cansada de me ver daquele jeito, deixou que eu me depilasse. A reação dos meus colegas a isso foi exatamente a esperada, tanto que ninguém mais deve se lembrar disso.

Esse tipo de pressão sobre meu corpo me deixou extremamente aversa ao surgimento de pelos. Mesmo hoje, que me considero feminista, não consegui me libertar desse tipo de amarra do patriarcado (sim, amarra) e me depilo até hoje. Só assim, consigo me sentir minimamente bem comigo mesma, porque só o fato de esses pelos existirem já me atinge.

Muitos dizem que depilar-se é mais higiênico, incluindo os próprios homens. Sendo assim, por que a grande maioria dos homens não se depila? São todos anti-higiênicos então!

Analisando o assunto com calma: eu tenho o controle sobre meu corpo? Sim, claro que tenho. Se eu quisesse, poderia parar de me depilar agora mesmo. Mas teria de sofrer com todo tipo de comentário grotesco. Se eu, aos doze anos, já era tratada como desleixada e porca, imagine agora, com quase dezoito.

O mais engraçado, depois disso tudo, é ver comentários de mulheres aversas à depilação masculina. Humanidade, sentido para quê?

Já tive de sofrer com comentários pesados acerca do meu cabelo também. “Você tem cabelo ruim” é um dos piores. Ou aquele, disfarçado de sugestão: “por que você não alisa seu cabelo? Ficaria bem melhor”. Até tentei me submeter a esse tipo de preconceito, mas não deu muito certo, e hoje as pessoas vão ter que me engolir (e engolir meus cachinhos também). Outras características físicas mais difíceis de serem modificadas também foram amplamente criticadas, o que me deixou muito mais frágil e com uma autoestima destroçada. Mas não há nada a se fazer quanto a isso.

Minha reação a mulheres que não se depilam, portanto, é um pouco de admiração. Vocês são corajosas. Corajosas por enfrentarem uma sociedade machista, nojenta e desinformada que insiste em ditar regras sobre seus corpos. E não consigo deixar de associar esse feito a um ato político.

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Carolina Haine

22 anos, licenciada em Letras Inglês, designer e diagramadora de livros. Não vive sem o Evernote, uma caneca de chá e, claro, seus óculos de grau.

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