Resenha: O nascimento da crônica (Machado de Assis)

O nascimento da crônica

 

ASSIS, Machado de. O nascimento da crônica.

 

O texto inicia de maneira despretensiosa, como uma breve explicação acerca da origem da crônica. Entretanto, logo no primeiro parágrafo, o leitor depara-se com um choque: o título sugere a estrutura convencional de texto teórico. Machado de Assis coloca em cheque essa estrutura e traz um exemplo prático do gênero textual citado.

O narrador expõe três histórias completamente paralelas que giram em torno de um mesmo problema, o calor. Primeiramente, discute-se sobre o surgimento das estações dentro da narrativa bíblica. Adão e Eva viviam no paraíso, um local agradável e de clima supostamente ameno. Ao serem expulsos, tiveram de lidar com o calor e o inverno, e todas as consequências desagradáveis das variações climáticas.

Em seguida, um caso tipicamente croniano, em que duas vizinhas sentam-se à porta para trocarem ideias. Queixam-se do calor. Este mesmo calor, que as incomoda em atividades simples como comer o jantar, é rapidamente associado a outro relato. Em um enterro, pessoas costumam trajar roupas escuras, o que traz desconforto. O problema é momentâneo a elas, que prestam-se ao luto por algumas horas, ao contrário dos coveiros. Isso traz uma reflexão sobre a condição social dessas pessoas, cujo trabalho é pouco reconhecido, mas indiscutivelmente necessário.

Ao apresentar tais histórias, o narrador mostra que uma crônica pode nascer de uma ideia qualquer, um problema social ou mesmo um assunto momentâneo, sem precisar de normas e diretrizes a delimitarem um gênero tão fluídico.

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Carolina Haine

22 anos, licenciada em Letras Inglês, designer e diagramadora de livros. Não vive sem o Evernote, uma caneca de chá e, claro, seus óculos de grau.

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